Pais de Sofia, morta por uma bala perdida, não conseguiram entrar em casa: ´Tudo lá lembra ela´



Hérica nunca planejou engravidar. Mas após engatar um relacionamento de mais de dez anos com Felipe, os pais e sogros pressionaram o casal: queriam muito um netinho. Depois que ele passou num concurso público e entrou para a PM, os dois decidiram que seria o momento. “Quando saímos de lua de mel, disse para todo mundo que voltaria com uma menina. E ela veio. Virou a melhor coisa da minha vida. Nós vivíamos por ela”, relembra Hérica Fernandes, de 33 anos, ao lado do marido, o soldado PM Felipe Fernandes, de 34, na porta da casa dos sogros, em Jardim América, na Zona Norte do Rio. Sofia, de apenas 2 anos e 7 meses, foi morta no último domingo, atingida por uma bala perdida. Desde então, o casal não voltou para casa, em Irajá, também na Zona Norte: “Não dá! Tudo lá lembra ela”. No último fim de semana, 14 pessoas foram assassinadas e pelo menos outras 19 ficaram feridas no Rio.

Como vocês estão conseguindo lidar com a ausência dela?


Hérica: Eu estou vivendo sem acreditar ainda. Me conforto pensando que ela está na creche, que quando terminar a tarde, ela vai voltar sorridente para casa. Mas nem em casa consigo ficar. Não dá! Tudo lá lembra ela. A copa era dela. A sala vivia bagunçada com os brinquedos dela. Não era só o quarto dela que lembra a presença da Sofia. Por enquanto, vamos ficar na casa dos meus sogros. Mas eu não gostaria de voltar para lá.

Felipe: Logo depois da morte, fomos até nossa casa, pegamos documentos. Trouxe até um álbum de fotos dela pequena, o único que nós temos dela. Depois que ela fez 1 ano, só tínhamos fotos guardadas no computador. Mas o problema é permanecer lá. Ela só dormia no nosso quarto, entre nós dois. Ficava com os braços e pernas abertas para tocar em mim e na mãe ao mesmo tempo. Ela era uma menina muito especial. Depois do que aconteceu, até dormir está sendo difícil. À noite, a saudade vem forte e ficamos lembrando dela. Na noite passada, todos dormimos à base de remédios.


Hérica e Felipe mostram álbum de fotos de Sofia recém-nascida Foto: Marcelo Theobald/EXTRA



Um suspeito de participar da perseguição que terminou com a morte foi preso (ontem, a Justiça decretou a prisão preventiva de Thiago Rodrigues dos Santos, preso em flagrante na ocasião). Isso ameniza a dor?

Felipe: Não dá para saber de onde partiu o tiro. Na hora, só ouvimos um estampido alto. Não consegui ver o carro dos bandidos, só a viatura da PM, que veio em seguida. Do local onde minha filha estava, a chance do tiro ser do policial é grande. Mas não tem problema, ele estava fazendo o trabalho dele. Era obrigação dele reagir. E, mesmo que o tiro tenha saído da arma do bandido, ele não quis atingir minha filha. Foi uma fatalidade.

Não deu para concluir de onde veio o tiro?

Felipe: A Sofia estava brincando num escorrega alto. Quando as pessoas começaram a correr, vi que estava caída e só pensei em tentar socorrer. Foi um tiro só, não estava tendo um tiroteio. Na hora, até disseram que havia uma outra viatura tentando encurralar os bandidos. Mas não consegui ver nada. Na hora, até estava armado, mas nem toquei na minha arma. Não dava para reagir. Foi tudo muito rápido e a lanchonete estava cheia. Naquele momento, estava tentando saber se ela ainda estava viva. Só havia um buraquinho pequeno em cima da boquinha dela. E muito sangue. Não dá para tentar ficar apontando culpados. Ela morreu porque vivemos numa guerra e deixaram polícia sozinha nessa guerra sem sentido. Enquanto isso não acabar, muita gente vai continuar morrendo. A Sofia era boa demais para esse mundo ruim. Agora, ela deve estar num lugar melhor.

Como foi o último dia da Sofia?

Felipe: Ela estava muito feliz, estava brincando como nunca. Logo que acordou, já me chamou porque queria sair de casa, queria brincar. Parecia que estava com pressa de viver. Por isso, fomos no Habib’s lanchar com toda a família. Meu pai e minha mãe também estavam lá. A Sofia, mesmo cansada, brincou como nunca tinha brincado antes. Parece que ela sabia que podia acontecer alguma coisa.

Hérica: Só fomos no Habib’s, que é perto de casa, justamente por causa da violência da cidade. Não gostamos de ir a lugares que não conhecemos porque o Felipe é policial e anda armado. Nem à noite saímos mais por causa da violência. Esse ano, muitos policiais estão morrendo e eu ficava assustada pensando no que poderia acontecer com ele. Sempre que o Felipe saía de casa, ficava apreensiva. Ficava imaginando que alguma coisa podia acontecer com ele. Não gostava nem de escutar ele falando do trabalho. Nunca iria imaginar que uma tragédia dessas aconteceria ao lado de casa.

O que passou pela sua cabeça quando viu sua filha sangrando?

Hérica: Ali, na hora, demorei para entender o que estava acontecendo. Ouvi um barulho muito alto. As pessoas começaram a correr, as crianças foram procurar suas famílias e eu fiquei ali, sem saber o que fazer. Queria gritar, chorar, pedir socorro. Foi o momento mais triste da minha vida.

O senhor pensa em voltar a trabalhar?

Felipe: Hoje (ontem), vieram oficiais do comando da corporação conversar comigo. Não consegui responder se vou voltar agora. Eles estão me dando o apoio que preciso. Adoro ser policial militar. Fiz o concurso há seis anos, hoje estou no 16º BPM (Olaria). Antes do concurso, nunca me adaptei a nenhuma profissão. Vou à cabo em setembro. Já passei por situações em que minha vida foi posta em risco, mas amo a profissão. Não me arrependo de ter entrado para a PM, de jeito nenhum. Só que agora estou destruído.

Vocês querem ter outro filho?

Hérica: Perguntávamos muito isso para a Sofia. Ela dizia que não queria um irmãozinho. Até tentávamos convencê-la com o desenho preferido dela, Peppa Pig, que tem um irmão, o George. Perguntava para ela quem seria o George dela. Ela dizia que não queria um George real, que o do desenho estava bom. Por isso, deixava isso de lado. Só pensava nela. Agora que ela se foi, comecei a pensar nisso. Até conversamos sobre isso esses dias. Claro que não vai ser para substituir a Sofia. Ela é insubstituível, única.

Felipe: É, se tivermos mais um filho, ele ou ela será o irmão da Sofia, vai saber que teve uma irmã mais velha linda, alegre e muito inteligente.

A senhora sempre sonhou em ser mãe?

Hérica: Para falar a verdade, nem sempre. Conheci o Felipe há 12 anos numa festa e logo começamos a namorar. Acabamos namorando por oito anos. Ele fez o concurso para a PM, passou e, depois, nos casamos. Meus pais e os pais dele queriam muito um neto e, já que estávamos há tanto tempo juntos, foi inevitável. Quando saímos de lua de mel, disse para todo mundo que voltaria com uma menina. E ela veio. Virou a melhor coisa da minha vida. Amei aquela criança como não amei mais nada nesse mundo. Nós vivíamos por ela.

Quais lembranças a senhora vai guardar da Sofia?

Hérica: Ela era inteligente e muito viva. Aprendia tudo muito rápido. Parecia que gostava muito de viver. Acordava e já nos chamava. Contava até vinte e até dez em inglês. Adorava posar para fotos. Na semana passada, começamos a pensar em como seria a comemoração do aniversário dela, em junho, que era a coisa que ela mais gostava no mundo. Adorava tanto bater palma e assoprar vela que fizemos aniversários todo mês para ela até que completasse um ano. Em todo aniversário que ela ia, de todo mundo da família, era ela que assoprava a vela. Agora, não vai ter mais aniversário. Não sei como vamos ficar.


Via Extra
24/01/2017

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