PM morto em ataque criticou UPP: ´Colocam a gente dentro do morro para morrer´



Menos de um ano depois de entrar para a Polícia Militar, o soldado Michel de Lima Galvão denunciou a falta de condições de trabalho nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Uma gravação do policial de 2015 mostra o claro descontentamento do agente com a falta de munição e a desvantagem numérica e operacional no confronto com traficantes. Para ele, o projeto das UPPs estava falido. O soldado foi morto na noite de terça-feira, durante um ataque do tráfico no Jacarezinho, na Zona Norte da Cidade.

"Essa guerra não é nossa. Governo falido, projeto falido. Estão colocando a gente dentro do morro para morrer. A favela não é nossa casa. Ser policial não é ser guerrielheiro, não é confrontar em desvantagem numérica, em desvantagem logística, em desvantagem operacional", apela o soldado Galvão aos companheiros de tropa.

A irmã de Michel, Natália Lima, confirmou a autoria da gravação e criticou durante as manifestações de luto da PM, que colocou fitas pretas nas redes sociais em lamento à morte do agente.

— Esse luto, com certeza, poderia ter sido evitado. Até quando isso? Quantas famílias irão passar por essa dor de ver uma pessoa que faz parte da sua vida, seu sangue, acabar assim? Eu vi meu irmão naquele saco, e eu só queria trazê-lo para casa comigo. Mas não pude — criticou Natália ao Extra.

No áudio de Michel, ele relata ter pedido, em menos de uma semana, três colegas da corporação. Outros dois amigos haviam sido baleados. Na ocasião, ele apelava aos companheiros que não jurassem vingança na guerra das UPPs e que "baixassem" as armas por não terem condições de trabalho de enfrentar os criminosos.

— A gente tem que ter amor pela nossa vida (...) Não vamos querer dar uma de heróis. Não tem condições. O armamento que a gente pega para subir o morro... Como é que pode? Na quarta-feira, queriam que eu subisse o morro com uma pistola e dois carregadores de 15 tiros. Não tinha munição, não tinha fuzil, não tinha carregador de pistola — gritava o agente, que reclamou ainda de não ter recebido o salário daquele mês.

O soldado Galvão entrou para a PM em 2014. Segundo Natália, era o sonho do irmão. Ele não costumava reclamar de cansaço, porque amava o que fazia, mas sempre criticava as dificuldades financeiras e as condições de trabalho na corporação.

— Eles não estão nem aí. Eles só dão a ordem, não batem de frente com a sociedade como esses policiais guerreiros — pontuou Natália, em referência aos comandos da corporação e do Estado.

De acordo com a irmã, Michel foi assaltado duas semanas atrás por três bandidos. Não estava em serviço e escapou por não ter sido reconhecido como policial. Sem filhos, ele deixa a mulher.

Extra entrou em contato e aguarda posicionamento oficial da UPP do Jacarezinho.

LUTO NA PM

A Polícia Militar colocou fitas pretas de luto em suas páginas nas redes sociais Twitter e Facebook, após a morte do soldado. O agente chegou a ser levado para o Hospital municipal Salgado Filho, no Méier, mas não resistiu aos ferimentos. A morte dele foi registrada na manhã desta quarta-feira.

Pouco depois, Natália usou o Facebook para fazer um desabafo. "Por que Deus fez isso com a gente? Traz meu irmão de volta", escreveu ela, que recebeu em seguida diversas mensagens de apoio na rede social.






Segundo informações da assessoria de imprensa das UPPs, os policiais estavam numa localidade conhecida apenas como CRJ quando foram alvo dos disparos. Um outro soldado também foi ferido durante o ataque. Ele está internado e passa bem.

Ainda não há informações sobre o sepultamento do agente. Com a morte de Michel, chega a 24 o número de PMs mortos em 2017.

A Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) informou por meio de nota que lamenta a morte do policial e se solidariza com os familiares. No posicionamento enviado à imprensa, o órgão informou ainda que o comando da UPP do Jacarezinho tem prestado toda assistência necessária aos parentes, e que todos os policiais lotados na unidade passaram pelo treinamento do Estágio de Aplicações Táticas (EAT), realizado pelo Comando de Operações Especiais (COE), e pela CPP em 2015. A capacitação teria incluído instruções sobre o uso de tecnologias não letais, técnicas de abordagem de pessoas e condução de viaturas, técnicas de autoproteção e proximidade, patrulhamento e gerenciamento em situações de crise.

A CPP comunicou ainda que o áudio com as denúncias foi encaminhado aos comandos da UPP do Jacarezinho e da Polícia Civil, que segue investigando o caso.



Via Extra
22/02/2017

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