Morre adolescente baleado no Complexo do Alemão




O adolescente Paulo Henrique Oliveira de Morais, de 13 anos, morreu na manhã desta terça-feira, no Hospital municipal Salgado Filho, no Méier. O menino foi baleado na barriga nesta segunda-feira, durante um tiroteio entre policiais militares e traficantes no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Esta é a quarta morte na comunidade desde a última sexta-feira, quando a Polícia Militar começou uma operação para instalar uma torre blindada na Favela Nova Brasília, que integra o Alemão.

Mãe desmaiou duas vezes ao saber de morte

O corpo de Paulo permanece no hospital à espera de remoção para o Instituto Médico Legal (IML). A mãe dele, Michele de Oliveira, de 33 anos, está no local. Além do Paulo, ela tem um filho de 8 anos. O patrão de Michele, que trabalha como cuidadora de uma cadeirante, contou que a mulher está muito abalada.

— Ela recebeu a notícia de que o filho havia sido ferido quando estava trabalhando. Eu a liberei e a Michele veio imediatamente para o hospital. É uma mãe muito zelosa, toda hora ligava para os filhos para ver como eles estavam, se estavam bem. Uma supermãe — disse o aposentado Francisco Lousada, de 62 anos.

Tia-avó de Paulo, Marinete Martins Machado, de 62 anos, classificou a atual onda de violência no Alemão como "uma calamidade". Segundo ela, o garoto estava a caminho da cada de um amigo quando ficou encurralado:

— Ele me avisou que ia na casa do amigo, que mora num beco, jogar videogame. No caminho, ficou encurralado. Os homens ficaram atirando em cima dele. Sei que ele não vai voltar, mas é preciso dar um basta. Lá em cima está uma calamidade. Os policiais entram nas casas dos moradores, revistam todo mundo, não respeitam ninguém.

Marinete, tia-avó de Paulo, criticou a onda de violência no Alemão Foto: Pedro Zuazo / Extra


Ela disse, ainda, que os policiais chegaram a alegar que Paulo faria parte do tráfico no Alemão.

— Alegaram que o menino é traficante. Mas não tinha arma nenhuma. Aquilo virou uma guerra. Os moradores estão morrendo e ninguém faz nada. Moro lá há 61 anos e nunca vi uma guerra assim. Estamos sem luz porque eles atiraram nosso transformador. A Light foi lá ontem (segunda-feira) fazer o reparo e o comandante não deixou os funcionários subirem — contou Marinete.

Além do menino, três policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) ficaram feridos no Alemão, nesta segunda. Um dos PMs, atingido de raspão no braço, permanece internado no Hospital Central da Polícia Militar, no Estácio. Na mesma unidade está o cabo Rodrigo Gomes da Silva, atingido na perna e sem risco de morte. Já o cabo Matheus Bastos de Assis, de 33 anos, levou um tiro no rosto e está em estado grave no Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha.

Moradores do Alemão preparam um protesto pacífico nesta terça para pedir o fim dos confrontos na região. Eles vão pendurar lençóis brancos nas janelas de suas casas. Em alguns está escrita a palavra paz.

Uma das faixas preparadas pelos moradores Foto: Foto do leitor

Nesta terça, a PM deflagrou uma grande operação no Alemão. A corporação ainda não deu detalhes sobre a ação. Há relatos de tiroteio.

Uma moradora contou que o clima está tenso na comunidade:

— A rua está tensa demais. Algumas pessoas estão saindo para trabalhar. Mas muitos estão evitando sair de casa. Até mesmo para evitar que policiais ocupem essas residências para fazê-las de bases. É essa a situação que estamos vivendo.


Os PMs num dos acessos ao Alemão Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo

As Kombis que transportam moradores da parte alta para a parte baixa pararam de circular. Já a circulação de mototaxistas só acontecem em alguns pontos. Um outro morador diz que policiais do Bope estão entrando em algumas casas.

— Acordei bem cedo no primeiro voo do helicóptero. E aqui, como sempre, "tampado" (cheio de policiais). O Bope está aqui, entrando nas casas das pessoas — contou ele.

Por causa da operação policial, três escolas, uma creche e seis Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDIs) estão sem atendimento nesta terça-feira. Segundo a Secretaria municipal de Educação, as unidades atendem a 3.936 alunos.

Outros três mortos

Nos primeiros quatro dias de operações e tiroteios constantes no Alemão, três pessoas morreram, entre elas um soldado do Exército e um morador. A terceira vítima, segundo a PM, seria um homem com passagens pela polícia. Gustavo Silva, de 17 anos, foi ferido na localidade Alvorada, na Nova Brasília, na sexta-feira, quando estava saindo de casa para trabalhar em uma padaria.

Já o soldado do Exército Bruno de Souza foi atingido na perna quando estava dentro de casa. O projétil rompeu sua artéria femoral, e o militar morreu depois de perder muito sangue. No total, de sexta-feira até esta segunda, nove pessoas já foram baleadas no Complexo do Alemão.


Via Extra
25/04/2017


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