AACD anuncia fim das atividades em Nova Iguaçu




NOVA IGUAÇU - O Conselho Administrativo nacional da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) decidiu encerrar as atividades da instituição em Nova Iguaçu, no dia 30 de setembro. A decisão foi motivada pelo não cumprimento do compromisso financeiro por parte da Prefeitura com o Centro de Reabilitação. A dívida já chega a R$ 2 milhões. O anúncio foi feito na manhã de ontem pela diretora da instituição, Luciana Martins.

Com a decisão, mais de 3 mil pessoas, principalmente crianças, deixarão de ser atendidas todos os meses, na unidade, situada na Rua Maranhão, 125, no Jardim da Viga, onde foi construída a sétima das 12 AACDs existentes no Brasil. Mães e pais estão revoltados e prometem fazer protesto na porta da prefeitura.

Prefeito sem crédito



Alegando que não é política e que está apenas falando a realidade dos fatos, Luciana conversou ontem com jornalistas. “Aqui a despesa é de 350 mil reais mensais. Não recebemos desde setembro. O prefeito Rogerio Lisboa esteve aqui com a mulher dele (Erica), acho que há uns dois meses. Pagou uma parcela de R$ 223 mil em março, se comprometeu a assumir o compromisso da sua parte e manifestou seu desejo de municipalizar a AACD. Ficou de voltar e não voltou. 


Vieram dois superintendentes da sede da AACD, em São Paulo, para uma reunião, e ele não apareceu. Mandou dois assessores que não tinham poder de decisão. Tentamos contato, telefonei, mandei mensagem para o WhatsApp da Erica. Não houve retorno. Os 56 funcionários aqui recebem em dia. Só que o dinheiro acabou. Não recebemos desde setembro e a dívida chega a R$ 2 milhões”, relatou Luciana, justificando também o motivo da demissão de médicos e fisioterapeutas.

A diretora reconhece que “o movimento feito pelas mães das crianças é legítimo”, mas explica que, mesmo que a prefeitura de Nova Iguaçu pague a dívida, o Conselho Administrativo fechará a AACD no município, “porque não acredita mais na palavra do gestor público (ela evita falar o nome do prefeito Rogerio Lisboa. Lamento, ao saber que os pacientes não terão para onde ir”, sinaliza.

Revolta das famílias

A revolta das mães com o fechamento da instituição aumentou, ao receberem a informação de que o prefeito Rogerio Lisboa havia manifestado a vontade de municipalizar a instituição.

“Nem pensar. Ele não cumpriu até agora o que foi tratado, como vai cumprir a instituição toda?”, esbraveja Fabiana Matos, 40 anos. Ela é mãe de Arthur, um menino de 5 anos que, desde os quatro meses de vida, recebe atendimento na AACD de Nova Iguaçu. Ela contou que a criança tem os “ossos de vidro”, ou seja, muito frágeis. Mas, com o tratamento, já consegue pilotar sua própria cadeirinha de rodas.

Ricardo Augusto de Oliveira Coutinho, 55 anos, também não acredita no governo de Lisboa. “A gente fica com uma angustia muito grande. Isso aqui é a luz no fim do túnel para muita gente”, lamenta. Ele recebe atendimento de hidroterapia para fortalecer e preparar a musculatura para receber uma prótese na perna direita, amputada por causa da diabetes.

Gilcimeire Alves, 40, chora, ao falar do fechamento da AACD e não acredita na promessa do prefeito. “Isso é desumano. É muita maldade, muito desrespeito fechar a instituição depois de 13 anos aqui. Eu também não creio na municipalização. Quem não conseguiu pagar parte do que deve, não conseguirá assumir toda despesa da instituição. Para onde vamos levar nossos filhos?”, questiona. Ela é mãe de Maria Sophia, de 4 anos, que sofre de mielomeningocele (má formação congênita da coluna vertebral) e hidrocefalia.

O drama de Gilcimeire

Há mais de um ano vivendo sob a ameaça de fechamento da AACD, Gilcemeire lançou o abaixo-assinado “Não deixe a AACD fechar” relatando seu drama e o de muitas famílias. O documento já recebeu aproximadamente 25 mil assinaturas pela permanência da instituição em Nova Iguaçu. Junto com dezenas de mães, ela organiza um movimento para acampar na porta da TV SBT, em São Paulo, para que apoio da emissora de Silvio Santos.

“Vim aqui contar a história da minha princesa e guerreira. Eu fiz meu pré-natal normalmente, como todas as mães fazem. Fiz ultrassonografia, entre elas a mais importante, como: morfológica e dobller. Mas nessas ultras não constatou a mielomeningocele e nem hidrocefalia. Continuei a minha vida normalmente, trabalhando e cuidando da minha família. Não faria ideia de que um futuro bem próximo me faria uma surpresa. Três dias antes de Maria Sophia nascer, comecei a sentir contrações e fui para uma maternidade próxima da minha casa. Chegando lá, fizeram todos os exames e constataram a hidrocefalia. Eu quase surtei, fui pega de surpresa e me internaram na hora. Dois dias depois a minha guerreira nasceu. 


Quando a pediatra pegou para fazer os exames, outra surpresa. Ela me falou que Maria Sophia tinha mielomeningocele, e eu nem fazia ideia do que era. Ela foi transferida para outra maternidade com estrutura para cirurgia. Logo após, as cirurgias ela ficou no UTI. A pediatra olhou pra mim e disse que ela não iria andar e nem falar. Depois de 49 dias, Maria Sophia recebeu alta médica. Foi aí que conheci a AACD em Nova Iguaçu. Foi aí que comecei a ter esperanças. A AACD mudou a minha vida, da minha filha e de toda minha família. 

Minha filha começou a evoluir. Com oito meses ela não sentava e nem rolava. Depois que começou a fazer fisioterapia e hidroterapia e GEP, ela deu um grande salto. Pois eu tinha o diagnóstico de que ela seria um vegetal. Hoje ela engatinha muito bem e fala pelos cotovelos. Só tenho a agradecer esses profissionais que trabalham com amor e carinho com nossos filhos. Tudo graças a AACD. Mas ela ainda precisa de muito tratamento. Não só ela como centenas de crianças, adolescentes e adultos”.

Repercussão nas redes sociais

Além de virar matéria de destaque no Programa de TV Fala Baixada, apresentado pelo jornalista Mauro Vasconcelos, a falta de pagamento da prefeitura, motivando o fechamento da AACD, também repercutiu nas redes sociais.

Charles de Souza – A AACD, instituição que proporciona reabilitação física de milhares de crianças com deficiência, além de essas pessoas no esporte paraolímpico, fazendo com que tenham uma maior inserção social, vai fechar as portas. O Motivo é político.

Andreia Suhet – Já me arrependi de ter dado meu voto a Rogério Lisboa aff cara de pau.

Geane Louteiro – É um absurdo. Um local como a AACD fechar. Cheguei a fazer entrevista para trabalhar lá. E conheço muitas pessoas que se tratam lá e estão desoladas e sem esperanças do que vão fazer com seus filhos…

Lisboa nega dívida

O prefeito Rogerio Lisboa disse que não deve nada a AACD. “Na minha gestão, a instituição produziu uma despesa de R$ 161 mil. Além desse valor, paguei mais R$ 233 mil, em março, totalizando R$ 294 mil. Ou seja, paguei mais do que devia. Acontece que estão cobrando dívida do governo anterior, que recebeu dinheiro e não pagou a eles. Não acho justo eu pagar pela gestão passada”, explicou.

Quanto ao fechamento da instituição, o prefeito afirmou que “A AACD está com a política de abandonar com o projeto no Brasil. Em alguns lugares já fechou. Em março eles protocolaram um ofício, assinado pelo superintendente Valdezir Galvan, dizendo que não tinham mais interesse no contrato. E quanto à ideia de municipalização, a proposta é deles. E eu topo, mas com uma condição: eles produzem uma despesa mensal que chega a ultrapassar R$ 500 mil. Se a minha parte não passar de R$ 370 mil mensais, e eles continuarem trabalhando para ajudar as crianças, eu assino essa responsabilidade diante do Ministério Público. Essa unidade é regional e atende a gente de todo estado. Não tenho condição de assumir isso sozinho”, explicou.

O que é a AACD

A Associação de Assistência a Criança Deficiente (AACD) foi criada em 1950 pelo médico Renato da Costa Bomfim. Ele conheceu o projeto nos Estados Unidos, quando fazia estágio em ortopedia. Conheceu o projeto, gostou do que viu e trouxe para o Brasil. 

Trata-se de uma instituição sem fins lucrativos, que trabalha há mais de 60 anos na reabilitação de crianças, jovens e adultos com deficiências. Em 1988 a entidade ganhou reforço da Teleton, através do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), quando se construiu 12 Centros de Reabilitação no nosso país, sendo um deles em Nova Iguaçu, em 2004, o único no Estado do Rio de Janeiro. Os serviços são de fonoaudiologia, fisioterapia, fisioterapia aquática, terapia ocupacional, psicologia e fisiatria.
Via Jornal de Hoje

27/06/2017



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